Por Amanda Carolina Tostes
O desafio de alimentar quase 10 bilhões de pessoas nas próximas décadas não é apenas produtivo é, sobretudo, ambiental. Um novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) revela que os recursos naturais que sustentam a produção de alimentos estão sob pressão crescente e que apenas uma mudança estrutural nos modelos agrícolas poderá garantir a segurança alimentar global. De acordo com a FAO, a população mundial deverá atingir cerca de 10 bilhões de pessoas até 2050. Para atender a essa demanda, será necessário transformar profundamente a forma como a terra, o solo e a água são geridos em todo o planeta. O alerta está no relatório Estado dos Recursos Mundiais de Terra e Água para Alimentação e Agricultura, Solaw 2025.
Apesar de a produção agrícola mundial ter triplicado nos últimos 60 anos, esse avanço foi acompanhado por custos ambientais e sociais severos. Atualmente, mais de 60% da degradação dos solos causada por atividades humanas ocorre em áreas agrícolas, evidenciando que a expansão territorial já não é uma alternativa viável para ampliar a oferta de alimentos.
Em 2024, cerca de 673 milhões de pessoas passaram fome no mundo, segundo a FAO. Ao mesmo tempo, as projeções indicam que a agricultura terá de produzir 50% mais alimentos, rações e fibras do que em 2012 até 2050, utilizando, contudo, 25% a mais de água doce, um recurso cada vez mais escasso. A combinação desses fatores expõe a fragilidade do atual modelo produtivo.
O Solaw 2025 indica que, em termos teóricos, o planeta poderia alimentar até 10,3 bilhões de pessoas até 2085. Esse potencial, porém, só será alcançado se os ganhos de produtividade vierem da eficiência dos sistemas agrícolas e não da abertura de novas áreas. Entre as estratégias apontadas estão o fechamento dos hiatos de produtividade entre aquilo que se produz hoje e o que seria tecnicamente possível produzir, a diversificação de culturas e a adoção de variedades mais resistentes, adaptadas às condições locais de solo, água e clima, sempre associadas a práticas sustentáveis.
O relatório também reforça a importância da agricultura de sequeiro, base de sustento de milhões de pequenos produtores no mundo. Técnicas como conservação da umidade no solo, compostagem orgânica, diversificação produtiva e uso de sementes tolerantes à seca podem ampliar a segurança alimentar sem pressionar ainda mais os recursos hídricos.
Sistemas produtivos integrados surgem como outro caminho promissor. Agroflorestas, pastoreio rotativo, melhoria das forragens e modelos combinados, como a integração arroz–peixe, demonstram grande potencial para elevar a produção de forma equilibrada. Nas regiões em desenvolvimento, sobretudo na África Subsaariana, as colheitas de sequeiro atingem apenas 24% do rendimento possível, o que revela imenso espaço para ganhos com boa gestão. Para a FAO, no entanto, a transição para esse novo paradigma não ocorrerá de forma automática. Políticas públicas coerentes, governança eficiente, acesso a dados, tecnologia e inovação, além de financiamento sustentável e fortalecimento institucional, são condições fundamentais para viabilizar as mudanças necessárias.
As transformações climáticas tornam o cenário ainda mais complexo. Com alterações nos padrões de chuva, temperatura e disponibilidade de água, o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, alerta que as decisões tomadas hoje sobre a gestão da terra e dos recursos hídricos definirão a capacidade do planeta de produzir alimentos no futuro e de preservar esses bens para as próximas gerações.
Em 2026, as três Convenções do Rio Biodiversidade, Desertificação e Mudanças Climáticas, realizarão conferências de alto nível. O Solaw 2025 oferece recomendações comuns que dialogam com as três agendas, propondo uma abordagem integrada para a gestão sustentável da terra, do solo e da água. Ao final, a FAO é categórica: proteger esses recursos naturais não é apenas uma agenda ambiental, mas uma condição indispensável para garantir segurança alimentar, nutrição, bem-estar humano e o cumprimento dos objetivos globais de sustentabilidade.