Por Amanda Carolina Tostes
A COP30, realizada em Belém, segue marcada por intensas mobilizações sociais e forte presença indígena, que vem pressionando governos e organismos internacionais a adotarem medidas mais contundentes em defesa da Amazônia. Os últimos dias foram especialmente tensos, com protestos, bloqueios e negociações diretas entre lideranças indígenas e representantes da conferência.
Bloqueio indígena na entrada da COP30
Nesta sexta-feira (14), cerca de 100 manifestantes indígenas, em sua maioria do povo Munduruku, bloquearam a entrada principal da COP30. O ato, noticiado por veículos como AP News e Reuters, interrompeu o fluxo de entrada das delegações, que precisaram acessar o evento por uma entrada lateral, onde a segurança foi reforçada.
Os manifestantes exigem que o governo brasileiro suspenda projetos de mineração, exploração madeireira, perfuração de petróleo e a construção de uma ferrovia que cortaria a Amazônia. Segundo a ONU, apesar das tensões, o protesto “não ofereceu risco” aos participantes.
Diálogo com a presidência da COP
Diante do bloqueio, o presidente da conferência, André Corrêa do Lago, deixou as salas de negociação e passou mais de uma hora conversando diretamente com as lideranças indígenas, segundo o The Guardian. O grupo insiste em uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que suas demandas não estão sendo devidamente consideradas nas discussões climáticas.
Manifestantes também denunciaram o que chamam de “privatização dos rios amazônicos”, alegando que acordos com empresas têm colocado em risco seus modos de vida tradicionais.
Confrontos anteriores
O clima de tensão não é novo. Na terça-feira (12), um grupo de manifestantes, indígenas e não indígenas, entrou em uma área interna da conferência, o que gerou confrontos com a equipe de segurança. Houve correria, empurra-empurra e feridos leves, conforme relatado pelo The Guardian. A ONU afirmou ter seguido os protocolos de segurança para retomar a ordem.
Pauta indígena ganha centralidade
A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, reforçou que esta é uma COP histórica: mais de 5 mil representantes indígenas estão presentes em Belém. Segundo informações oficiais do governo brasileiro, Guajajara destacou a criação do Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF), que prevê repasses diretos a povos indígenas e comunidades tradicionais. Ela também definiu a COP30 como a “COP da Democracia”, ressaltando a abertura para uma participação social mais ampla e diversa.
Outros temas quentes na COP30
Além das tensões políticas, temas estruturais e logísticos ganharam destaque:
Transição justa: representantes ressaltam que povos indígenas e matriz energética devem ser peças-chave da transição para uma economia sustentável.
Infraestrutura da COP: relatos de alagamentos, calor excessivo e falhas estruturais foram registrados, segundo a revista Veja, gerando críticas à organização.
Barqueata indígena: uma flotilha de barcos conduzida por diferentes povos navegou pela Baía de Guajará, ampliando a visibilidade das manifestações além da entrada terrestre da conferência.
Simbolismos e críticas midiáticas
A presença do navio Rainbow Warrior, do Greenpeace, ancorado em Belém, tornou-se um símbolo poderoso de resistência indígena e ambiental, conforme destacou o Le Monde.
Além disso, movimentos indígenas divulgaram a declaração “The Answer is Us” (“A resposta somos nós”), reforçando que soluções para a crise climática já existem nos conhecimentos e práticas tradicionais dos povos da floresta.
O que isso significa no contexto da COP30
Os últimos acontecimentos mostram que os povos indígenas deixaram de ser apenas uma presença simbólica e se afirmam como atores políticos centrais, exigindo reconhecimento territorial, proteção de seus territórios e participação efetiva nas decisões climáticas. Ao mesmo tempo, a COP30 expõe uma contradição importante: enquanto se discute a preservação climática no plenário, projetos de infraestrutura e exploração continuam avançando na Amazônia, gerando tensão entre discurso e prática.
O bloqueio da entrada principal da conferência evidencia que as lideranças indígenas não estão mais dispostas a aceitar gestos protocolares. Elas querem ser ouvidas e de forma concreta.
Por fim, a situação levanta questionamentos sobre a própria organização da conferência: reforço de segurança, acessos restritos e problemas estruturais podem ser percebidos como incompatíveis com os valores de transparência e justiça climática defendidos pelo evento.