Com previsão de pico no Camboja até o início de 2027, fenômeno climático ameaça segurança alimentar no Sudeste Asiático; tecnologia de monitoramento e alertas apoiam agricultures locais. O cenário climático no Camboja reflete os impactos do El Niño, atrasando as monções de verão e intensificando a estiagem no Sul e Sudeste Asiático. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, OMM, o fenômeno deve atingir o auge entre o final de 2026 e o início de 2027, estendendo seus impactos na produção de alimentos e nas temperaturas globais.
A devastação
Às sete da manhã, o calor já se instala sobre as plantações da província de Siem Reap, no Camboja. O ar estático, a terra esturricada e as lavouras de arroz começam a morrer. Sem qualquer sinal de chuva, os agricultores locais enfrentam mais uma vez os efeitos do El Niño. O agricultor Sokhoeun Chhut relata que nunca vivenciou uma seca tão longa e que toda a sua produção foi perdida nesse ano.
Grandes secas
No entanto, o fenômeno não é novidade na região. Durante os anos de 1997 e 1998, o governo do Camboja chegou a pedir auxílio internacional para obter 250 mil toneladas de arroz destinadas à população afetada. A agricultora Sokhom Kha, da província de Preah Vihear, trabalhava no campo desde 1987 e relembra que muitas pessoas comiam arroz misturado com milho vermelho para sobreviver à fome. Em 2015, o fenômeno foi mais severo, afetando cerca de 2,5 milhões de pessoas em 18 províncias e reduzindo novamente a produção agrícola e a pesca.
Tecnologia espacial contra crise
A vivência dos agricultores no país pôde ser traduzida em estatísticas com base em 41 anos de observações de satélite do Sistema de Índice de Estresse Agrícola, Asis. Em junho, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO, identificou o Camboja como uma área de alto risco para seca. Neste ciclo do El Niño, a estimativa é de que 127,3 mil hectares de terras agrícolas e pastagens sejam impactados no país. O oficial de recursos naturais da FAO, Jorge Alvar-Beltrán, afirma que o monitoramento oferece uma possibilidade aos governos e agricultores de agir com antecedência.
Mudança no campo
Através de escolas para agricultores, a FAO implementou um projeto em parceria com o governo do Camboja e financiado pelo Fundo Verde para o Clima, GCF, que combina boletins meteorológicos com orientações práticas de plantio. Além do treinamento, as informações chegam aos produtores por redes sociais e por aplicativo. As notificações orientam os momentos exatos para irrigar ou conter a água. Para agricultores como Kha, a tecnologia ofereceu tempo. Com 10 dias de antecedência, ela soube não choveria e seguiu os conselhos de para preservar a sua plantação, como fechar os diques do campo e armazenar água.