Com início marcado para 9 de novembro, conferência climática da ONU reunirá representantes de mais de 190 países na Turquia. Financiamento climático, transição energética, adaptação e proteção das populações vulneráveis estarão entre os principais desafios das negociações.
Por Amanda Carolina Tostes
O mundo está prestes a iniciar mais uma importante etapa das negociações internacionais sobre o futuro do clima. Entre os dias 9 e 20 de novembro de 2026, a cidade de Antália, na Turquia, receberá a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP31, reunindo representantes de mais de 190 países, cientistas, organizações ambientais, lideranças indígenas, instituições financeiras e integrantes da sociedade civil.
A conferência começa em um momento particularmente delicado para o planeta. O aumento das temperaturas globais, a intensificação de eventos climáticos extremos, as secas prolongadas, as enchentes, as ondas de calor e a pressão sobre os ecossistemas demonstram que a crise climática deixou de ser uma ameaça distante. Seus impactos já atingem cidades, economias, sistemas de produção de alimentos e milhões de pessoas em diferentes regiões do mundo. A expectativa para esta edição é que os países avancem além das declarações diplomáticas e apresentem caminhos efetivos para transformar compromissos climáticos em resultados mensuráveis. Em uma publicação divulgada em 5 de novembro, a própria Organização das Nações Unidas destacou que o principal desafio da atualidade não é apenas desenvolver soluções para enfrentar as mudanças climáticas, mas garantir que elas sejam acessíveis a todos os países e populações.
Uma conferência marcada pela urgência climática
A COP31 acontece em um cenário de crescente preocupação científica com o aquecimento global. As avaliações internacionais indicam que o planeta caminha para ultrapassar temporariamente o limite de 1,5°C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais, estabelecido como referência no Acordo de Paris. Esse possível ultrapassamento, conhecido internacionalmente como overshoot, não significa que os esforços climáticos perderam sua importância. Pelo contrário: quanto maior a elevação da temperatura e quanto mais tempo ela permanecer acima desse patamar, maiores serão os riscos para a biodiversidade, a disponibilidade de água, a produção agrícola, a saúde humana e a estabilidade dos sistemas naturais. Outro fator de preocupação é a expectativa de um El Niño de forte intensidade, que poderá contribuir para agravar determinados extremos climáticos em diferentes regiões do planeta. Diante desse cenário, a conferência terá o desafio de fortalecer a cooperação internacional e acelerar medidas de redução das emissões de gases de efeito estufa, além de ampliar a capacidade de adaptação das sociedades às mudanças que já estão em curso.
COP31 terá liderança compartilhada entre Turquia e Austrália
Uma das particularidades desta edição será o modelo de organização e liderança compartilhada entre dois países. A Turquia será responsável pela presidência oficial e pela realização do encontro em Antália, enquanto a Austrália conduzirá o processo de negociações internacionais, trabalhando em parceria com os países anfitriões e as nações insulares do Pacífico. A participação australiana também busca ampliar a visibilidade dos impactos climáticos enfrentados pelas comunidades do Pacífico, especialmente aquelas ameaçadas pela elevação do nível do mar, pela erosão costeira e por eventos meteorológicos extremos.
Nesta sexta-feira, 6 de novembro, o ministro australiano das Mudanças Climáticas e Energia, Chris Bowen, anunciou sua viagem a Antália para liderar a delegação do país e as negociações internacionais da COP31. Entre as prioridades apresentadas estão o avanço da eletrificação, a ampliação dos investimentos, o acesso ao financiamento climático e a agenda de proteção dos oceanos. A proposta da presidência é consolidar uma conferência voltada à implementação, buscando transformar compromissos já assumidos em projetos, investimentos e políticas públicas capazes de produzir resultados concretos.
Financiamento climático: um dos maiores desafios da conferência
Um dos temas mais sensíveis da COP31 será o financiamento climático.
Os países em desenvolvimento enfrentam dificuldades para financiar projetos de adaptação, infraestrutura resiliente, energias renováveis e proteção ambiental. Embora muitas dessas nações estejam entre as mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, frequentemente possuem menos recursos financeiros e tecnológicos para enfrentar o problema. A discussão envolve não apenas o volume de recursos disponíveis, mas também as condições de acesso, a distribuição dos investimentos e a necessidade de mecanismos que não aumentem o endividamento dos países mais pobres. A ONU destaca que o investimento em energia limpa ainda está distribuído de maneira desigual. Em 2025, as economias emergentes e em desenvolvimento, excluindo a China, receberam apenas 18% dos investimentos globais em energia limpa, apesar de abrigarem aproximadamente dois terços da população mundial. A desigualdade financeira representa um obstáculo importante para a transição energética global e deverá ocupar espaço central nas negociações em Antália.
Transição energética e redução da dependência dos combustíveis fósseis
Outro ponto fundamental será acelerar a substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia mais limpas. Petróleo, carvão mineral e gás natural continuam entre os principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa. Apesar do crescimento das energias renováveis, a transformação dos sistemas energéticos ainda ocorre em ritmos diferentes entre as nações. A expansão da energia solar e eólica, o desenvolvimento de sistemas de armazenamento em baterias, a modernização das redes elétricas e a eletrificação dos transportes e da indústria estão entre as alternativas que podem contribuir para reduzir as emissões.
Segundo dados apresentados pela ONU em 5 de novembro, o mundo adicionou mais de 600 gigawatts de capacidade solar em 2025. No mesmo ano, as vendas de veículos elétricos alcançaram aproximadamente um quarto das vendas globais de carros novos. Esses avanços demonstram que a transformação tecnológica já está acontecendo. O desafio agora é ampliar sua escala e garantir que seus benefícios alcancem também os países com menor capacidade de investimento.
Adaptação climática, água e segurança alimentar
A adaptação às mudanças climáticas também deverá ganhar destaque na conferência. Secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e alterações nos regimes de chuva estão colocando em risco a produção de alimentos, o abastecimento de água e a segurança de milhões de pessoas. O fortalecimento da agricultura sustentável, a recuperação de áreas degradadas, a proteção das florestas, a conservação dos recursos hídricos e o planejamento de cidades mais resilientes são medidas fundamentais para reduzir a vulnerabilidade das populações. A COP31 deverá dar atenção especial à infraestrutura preparada para eventos extremos, aos sistemas de saúde, à segurança alimentar e à gestão da água, além da proteção de ecossistemas costeiros e marinhos. Para países como o Brasil, que possuem grande disponibilidade de recursos naturais, mas também enfrentam desmatamento, queimadas, eventos extremos e pressão sobre seus biomas, essas discussões têm importância estratégica.
Justiça climática e proteção das populações vulneráveis
A crise climática não atinge todas as populações da mesma maneira. Comunidades tradicionais, povos indígenas, agricultores familiares, moradores de regiões costeiras e populações em situação de vulnerabilidade social frequentemente enfrentam consequências mais severas, mesmo tendo contribuído menos para as emissões históricas de gases de efeito estufa. Por isso, a justiça climática deverá permanecer entre os assuntos fundamentais das negociações. Um dos desafios será avançar na implementação do Mecanismo de Transição Justa, cuja criação foi acordada na COP30, realizada em Belém, no Brasil, em 2025.
O mecanismo busca apoiar uma transformação econômica que reduza a dependência dos combustíveis fósseis sem deixar trabalhadores, comunidades e países vulneráveis para trás. Também estará em discussão o apoio financeiro às populações que já sofrem perdas e danos provocados pelas mudanças climáticas, além da participação efetiva dos povos indígenas e das organizações da sociedade civil nas decisões internacionais.
O legado da COP30 e a responsabilidade dos países
A COP31 também será uma oportunidade para avaliar o que avançou desde a conferência de Belém. A COP30 deixou como parte de seu legado a necessidade de acelerar a implementação do Acordo de Paris, fortalecer a cooperação internacional e ampliar as ações voltadas à transição energética e à adaptação climática. Agora, a expectativa é que os países demonstrem como transformar essas decisões em políticas nacionais, investimentos e metas capazes de ser acompanhados e avaliados. Um dos grandes desafios continuará sendo conciliar interesses econômicos, responsabilidades históricas e necessidades de desenvolvimento. As divergências entre países produtores de combustíveis fósseis, economias industrializadas e nações em desenvolvimento podem dificultar a construção de consensos. Por isso, a capacidade de negociação e a disposição política dos governos serão determinantes para o resultado da conferência.
Brasil terá papel importante no debate ambiental internacional
Mesmo após sediar a COP30, o Brasil continuará tendo uma posição estratégica nas discussões climáticas internacionais. A proteção da Amazônia, o combate ao desmatamento, a redução das queimadas, a recuperação de áreas degradadas, a conservação da biodiversidade e a expansão das energias renováveis são temas que colocam o país em posição relevante nas negociações. O Brasil também precisa demonstrar avanços concretos em suas metas climáticas e fortalecer políticas públicas capazes de conciliar desenvolvimento econômico, conservação ambiental e inclusão social. A experiência da COP30 em Belém mostrou a importância de aproximar as discussões internacionais das realidades dos territórios, especialmente das populações que convivem diretamente com os impactos ambientais. Na COP31, o desafio será manter essa agenda e contribuir para que as decisões internacionais sejam acompanhadas de compromissos efetivos.
O planeta não pode esperar por mais promessas
A COP31 começa em um momento em que a humanidade já dispõe de tecnologias, conhecimento científico e alternativas para reduzir significativamente os impactos das atividades humanas sobre o clima. Entretanto, a velocidade das transformações ainda não corresponde à dimensão da crise ambiental. Não basta estabelecer metas para as próximas décadas enquanto florestas continuam sendo destruídas, oceanos sofrem com a poluição, espécies desaparecem e comunidades enfrentam secas, enchentes e temperaturas cada vez mais elevadas. A conferência de Antália representa mais uma oportunidade para que os governos demonstrem responsabilidade diante de um problema que ultrapassa fronteiras e gerações. O sucesso da COP31 não deverá ser medido apenas pelos discursos dos líderes mundiais ou pelos documentos assinados ao final das negociações, mas pela capacidade de transformar decisões em ações, investimentos e resultados que possam ser percebidos pela sociedade. A crise climática exige urgência, responsabilidade e cooperação. O futuro ambiental do planeta depende das decisões tomadas hoje.